Testemunhos
Irmãs da Sagrada Família chamadas a revelar hoje o rosto de um Deus de ternura (Const.art 2)
Hoje a congregação está presente nos contextos culturais e religiosos diferentes segundo os paises. Sua missão se realiza por meio de diversas formas de presença e de serviço. Mas, como Emília em seu tempo, qualquer que seja sua missão, as Irmãs tentam revelar a seus irmãos o rosto do Deus de ternura. É o que querem expressar os testemunhos seguintes.
Descobrir as Passagens de Deus...
Todo homem, toda realidade humana, é um apelo a descobrir os sinais da passagem de Deus em nossa história". (Const.art 12)
Pouco depois de nossa chegada a Horsham, entramos em contato com Mme C, pessoa fisicamente agradável e de caráter muito alegre. Casada, mãe de dois filhos, ela parecia independente, dominando bem a sua vida.
Atrás dessas aparências, escondiam-se feridas e frustrações. Nós nos tornamos e continuamos a ser instrumentos do Senhor ao lado dessa pessoa ajudando-a a progredir em sua vida interior à medida em que sua triste história se revelava para nós: infância traumatizada pelo falecimento de sua mamãe aos 14 anos, e pouco depois a descoberta de seu pai morto. Ele se suicidou em conseqüência de uma depressão: desemprego e seis filhos para educar. As crianças foram obrigadas a se dispersar e a pessoa em questão foi acolhida num orfanato mantido por religiosas que a trataram com afeição e bondade e lhe deram uma boa educação.
Quando atingiu a idade de deixar o orfanato, foi viver na casa de um tio que infelizmente abusou dela.Sentindo-se insegura neste mundo hostil ela uniu-se a um rapaz e finalmente teve um filho fora do casamento... Essas experiências traumatizantes deixaram a sua marca. Nossas relações com ela, nossa presença, nossa compreensão, nossa aceitação, nossa escuta, pareciam ajudá-la mas estava claro que esta pessoa tinha necessidade de ajuda psicológica de um profissional.
Nós conseguimos que ela fosse atendida pela Segurança Social. Felizmente ela teve êxito.
Nós fomos testemunhas de que Deus dá aos seus uma força interior que espera ser utilizada e que nos convida a crer nas possibilidades das pessoas.
Um dia Madame C nos contou que, quando estava na escola, tinha uma voz muito bonita mas nunca teve oportunidade de cultivá-la. Que desafio para nós! Seria possível ajudá-la a desenvolver este dom e a crescer na estima dela mesma? Irmã Imani ofereceu-se para lhe dar lições de canto; fez isto regularmente e gratuitamente. Mme C fez grandes progressos e quando atingiu um certo nível, a irmã recomendou-a a um cantor de ópera muito conhecido que assumiu a sua formação junto com outros músicos de reputação nacional por seus talentos de cantores.
Este restabelecimento notável para uma pessoa que já havia sido alcoólatra e ligeiramente epilética é um sinal de esperança para tantas outras dentro de nossa sociedade atual. Mme C nos considera de sua família porque a ajudamos particularmente e continuamos a fazê-lo ainda em outros níveis sobretudo no plano espiritual quando ela estava sob a influência de testemunhas de Jehovah.
A guarda de seus filhos foi também uma de suas necessidades à qual atendíamos sempre que possível. Aconselhamo-la a bem gerir seu orçamento e outros problemas de ordem doméstica. Igualmente ajudamos o seu marido e seus filhos.
Rezamos por ela e damos graças a Deus porque aprendeu a crescer na confiança em si mesma e nos seus talentos. Reconheceu que sua bela voz é um dom de Deus e utiliza-a na oração litúrgica quando a ocasião se apresenta. Sentimo-nos privilegiadas e pequenas reconhecendo a ternura e a misericórdia de Deus atuando na vida de Madame C.
Cde. de Horsham, Inglaterra.
Em Cabedelo, com os nossos amigos alcoólatras
Nós estamos na "Vila Imaculada Conceição", um quarteirão que a maioria dos habitantes de Cabedelo (porto marítimo situado a 20 km de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, nordeste do Brasil) chamam "favela da Imaculada".
Trata-se de um quarteirão onde as casas e ruas são desorganizadas, sem saída, no centro mesmo de Cabedelo. Esse terreno pertencente à paróquia, foi pouco a pouco ocupado por famílias expulsas das praias...
Quando nós viemos visitar a favela fomos muito bem acolhidas. Antes mesmo de começar a construir nossa casa, muitas crianças e mulheres ajudaram Irmã Emília Teresa a limpar o terreno. Era uma festa para eles, saber que as irmãs tinham escolhido habitar na favela. Durante a construção da casa, os vizinhos nos forneciam água e à noite vigiavam o material para evitar os ladrões. Logo que terminou a construção da casa nós começamos a viver nela em comunidade.
Nossos vizinhos vieram logo nos falar do comportamento das pessoas da favela: as mulheres tagarelam até de madrugada, os homens se embriagam e batem na mulher, os jovens se drogam e roubam.... e o que as mulheres nos contavam era bem verdade.
Há mais ou menos dois anos que estamos aqui e já assistimos cenas terríveis. Fomos obrigadas a acolher em nossa casa um bebê abandonado à nossa porta por uma mãe que nos pediu que o guardássemos enquanto ela precisava sair. Somente, nunca mais ela voltou. Abrigamos uma mulher espancada e ameaçada de morte pelo marido.Nós a hospedamos até que o marido se acalmasse. Hoje, graças a Deus as coisas vão bem. Fomos obrigadas a denunciar pelo abuso de poder, a polícia que queria prender à força um de nossos vizinhos, falsamente acusado. Conseguimos melhorar a distribuição de energia elétrica e a colocar na favela um telefone público. São gestos bem concretos.
Hoje queremos lembrar um que julgamos muito significativo, vivido com um de nossos amigos cachaceiros . Nossa preocupação era encontrar um meio de curá-lo desse vício.
A maioria bebia todos os dias enquanto as mulheres lavavam roupa, faziam faxina, cozinhavam nas casas dos outros. Nós estávamos conscientes de que se esses homens abandonassem a bebida, pelo fato mesmo a violência diminuiria e eles procurariam um trabalho. Irmã Vera entrou em contato com eles, conversando mesmo quando eles estavam embriagados e imediatamente alguns prometeram se corrigir.
Quando havia disputas, ferimentos, ou um caso de doença, Irmã Vera ia cuidar deles. Começou a jogar com eles aos domingos. Em vez de ir ao bar,então eles a esperavam para jogar. Pouco a pouco estabeleceram-se relações de confiança...até o dia em que o marido de Val, nossa vizinha, foi assassinado.
Na tarde seguinte, a polícia chegou, pois, nesses casos é sempre a "favela" que ela invade. A revolta geral fez com que Antônio que estava bêbado gritasse; ele acusou a polícia de ter ela mesmo cometido esse crime porque a polícia não gosta dos pobres. Antônio foi espancado com tanta violência que quase lhe arrancam os dedos dos pés. No dia seguinte, libertado da prisão ele tinha vergonha. Vera todos os dias tratava de suas feridas e lhe preparava remédios com plantas medicinais. Ele prometeu que jamais tocaria em bebida alcoólica. Estava envergonhado de ter sido preso pela polícia.
Um pescador que estava presente, disse: Se a mão de irmã Vera tem tanto poder quanto o seu nome logo ele será curado. Com efeito, quando estamos no mar e não conseguimos pescar é suficiente dizer seu nome: Irmã Vera, e logo os peixes aparecem e grandes peixes. Talvez não seja para se levar a sério mas Irmã Vera aproveitou para lhe pedir que se lembrasse de seu nome cada vez que tivesse vontade de beber, seria um meio bem simples de se corrigir. E foi o que aconteceu: Faz seis meses que ele não bebe. Cada semana vai à pesca e não bate mais na sua mulher. Cuida do bem estar de sua família e como tem uma certa influência sobre os outros, ajudou muitos a se tornarem melhor. Este fato nos revelou que nossa missão consiste em sermos uma presença da ternura de Deus no meio dos pobres- presença que se realiza por pequenos gestos. Hoje as mulheres só falam bem de sua "favela".
Comunidade de Betânia, Cabedelo-PB
Nos
Minha missão consiste em escrever cartas a prisioneiros que esperam "nos corredores da morte" nos Estados Unidos; nisto eu faço a experiência do amor e da ternura de Deus.
Voltando à Irlanda, há três anos, comecei a visitar os prisioneiros e suas famílias na zona de Tullamore.
Em 1996, por razão de saúde e com grande tristeza, precisei interromper este ministério. Fui hospitalizada e durante minha permanência no hospital encontrei um paroquiano que me falou de um organismo chamado: "um fio vital". É um organismo apolítico cujos membros levam sua amizade a homens e mulheres que estão nos "corredores da morte" nos Estados Unidos e Caraíbes.Em 1997 eu entrei neste organismo.
Escrever a um prisioneiro dos "corredores da morte" é bem diferente de toda outra amizade. É muito gratificante, mas extremamente exigente. Se você deseja um engajamento desse gênero precisa refletir em suas motivações, seus desejos e ser consciente de que em certos momentos haverá problemas e enormes tensões. Muitas vezes porém, você é o único laço que os prisioneiros mantêm com o mundo exterior e que podia ajudá-los a compreender o amor, a compaixão e a ternura de seu Senhor e Redentor. Como todos os seres humanos, onde quer que eles estejam, a maioria dos prisioneiros são sinceros, mas existem também alguns que tentam tirar proveito de sua amizade.
Munida desses ensinamentos eu recebi os nomes de três prisioneiros. O primeiro a quem escrevi me deu uma resposta muito educada. Ele nada tinha com a Igreja ou a religião. Respeitei seus desejos embora não tivesse falado de religião em minha carta. Eu o guardo em minha oração.
No momento o número de meus correspondentes se eleva a cinco. Suas histórias nos dilaceram o coração, mas, através de suas cartas eu faço a experiência da ternura e da compaixão do Cristo por cada um deles. Acho aqui uma carta de Noël Anderson. O apelo que fez ao Tribunal Superior acaba de ser rejeitado e ele é ameaçado de uma execução próxima.
"Eu quero que saibais que Dexter foi eliminado da luta dos condenados à morte no dia 4 de maio de 1998. Sua condenação foi mudada para uma pena de 75 anos, mas é uma loucura, minha irmã, pois no momento ele tem 39 anos. Ele me pediu para vos transmitir esta mensagem. Por favor, rezai para ele". Em meio a seu próprio sofrimento, ele partilhava com seu camarada de prisão.
A citação seguinte é a de um homem de 63 anos que está na prisão há 17 anos. Ele escreve:
"Eu permaneci 8 anos na luta dos condenados à morte. Leram para mim a ordem de execução, no dia 3 de dezembro de 1992. A execução foi prorrogada, graças a um advogado benévolo que comutou minha pena em prisão perpétua. Meu processo foi levado ao conhecimento da Comissão dos Direitos Humanos. Esta requereu uma libertação antecipada, o que me trouxe a esperança de ser logo libertado mas, o Estado não me deixou partir: agora as minhas esperanças foram frustradas. Ponho pois em Deus toda a minha confiança. Ele é o juiz supremo e é cheio de compaixão. Caminho cada dia com Ele, que me sustentará e será minha luz e minha consolação, mesmo que eu esteja cercado pelos muros da prisão.".
A fé dos homens me impressiona. Suas cartas são cheias de citações bíblicas. Eu aprendi tanto dos prisioneiros! Eu que pensava tentar ajudá-los recebi muito mais... Sua fé sólida e sua confiança no Pai cheio de compaixão são para mim enriquecedores.
Alguns me dizem: "Sim, eu cometi uma falta grave mas, estou arrependido. Tenho confiança no amor e na compaixão de um Pai misericordioso."
Quando eu escrevo para eles nunca pergunto quais as suas crenças religiosas nem por que estão na prisão. Meu papel é oferecer-lhes a minha amizade e nunca julgá-los; mas, pouco a pouco quando eles começam a me conhecer e a ter confiança, contam-me a sua história.
Estes homens permanecem trancados a chave 23 horas por dia. Durante uma hora são colocados numa jaula metálica que é levantada acima do solo e de dimensão bastante grande para que posam se mexer lá dentro.
Eles me contam que no verão, o calor é insuportável e que no inverno não têm roupas quentes então, gelam de frio.
Não manifestam por eles a menor compaixão, devem permanecer na jaula todo tempo fixado.
Este ano, por ocasião de minhas bodas de ouro, recebi cartas desses homens me dizendo que eles se regozijavam de minha alegria e que estavam unidos à minha oração.
É uma experiência maravilhosa do Deus de compaixão e de amor! Em seu sofrimento e isolamento eles se lembravam do que para eles teria sido talvez um detalhe minúsculo. Os cinco prisioneiros são cristãos mas outrora eu fiz a experiência desta mesma compaixão da parte dos prisioneiros incrédulos ou pertencentes a outras confissões religiosas.
Concluindo, eu partilho com todos vós as palavras de um homem inscrito na lista dos condenados à morte no Texas (Estados Unidos):
Hoje é difícil encontrar amigos porque as pessoas se escondem umas das outras por trás de muitas palavras, mas, palavras que não têm sentido, palavras que são tão vazias quanto o vento.
Eu quero encontrar um amigo, alguém com quem falar.
Irmã Mary Linchan